Aeroporto de Macaé, caos é pouco
Acho que todo mundo já leu sobre o progresso que o petróleo da Bacia de Campos trouxe para Macaé. Uma região quase morta do Estado do Rio foi trazida da tumba para um surto de desenvolvimento impulsionado a hidrocarboneto. De uma hora para outra a Petrobrás colocou milhões na cidade e foi uma invasão de serviços, profissionais qualificados e...povão. O povão como sempre ficou para depois e enquanto esperavam sorte melhor se acomodaram em...favelas. Ah, como o meu Brasil varonil, céu de anil é previsível. Mesmo quando há como fazer a coisa certa, por aqui preferem a maneira errada. É da nossa natureza mesmo.
Então hoje eu após muito tempo embarquei no aeroporto de Macaé. Parece que é dos três mais movimentados aeroportos do mundo quando se trata de vôos de helicópteros. Pela quantidade de aparelhos que eu vi lá é bem possível mesmo. E o aeroporto é uma vergonha, como diria o saudoso Boris Casoy. É indescritível. Um casebre onde se apertam centenas de pessoas partindo e chegando das plataformas, FPSO, bases de apoio e outras unidades da indústria do petróleo. Gente de todo mundo, trazida pelas maiores empresas de petróleo do mundo que hoje trabalham na área junto com a Petrobrás, muitos deles vindos diretos do Galeão ou Guarulhos para lá e de lá de volta para seus países. Quer dizer, para esses o Brasil é o aeroporto de Macaé.
Pois nem pensando nos milhões que o petróelo arrecada e que é fornecido em grande parte pelos profissionais que embarcam nesse aerobarraco a Infraero, o Estado do Rio ou a Prefeitura conseguiram viabilizar algo melhor. É um grande exemplo dá incompetência do Estado e de como o consumidor é tratado quando não há concorrência.
Depois de mais de uma hora em um tremendo desconforto fui para a sala de briefing da companhia onde eles passam as instruções de segurança em helicóptero para os passageiros. Aí foi o coroamento, o piloto meio sem graça contou que o aparelho iria fazer um sobrevôo em sentido contrário logo após a decolagem a fim de não passar por cima da favela Nova Holanda. É que o pessoal de lá tem o hábito de dar tiros nos helicópteros. Uma moça mais assustadinha perguntou: “mas eles nunca acertaram, não é verdade”? E o piloto, meio sem graça, “ano passado atingiram a dois”.
Senhores passageiros tenham uma boa viagem.
Escrito por Jose Mattos às 18h14
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A cor de Obama muda dos EUA para o Brasil?
A antropóloga Lilia Schwarcz deixou no ar uma dúvida fantástica no último Manhattan Connection: No Brasil o candidato Barak Obama seria considerado negro ou branco? Não responda rápido. Pegue uma foto colorida dele na imprensa ou na internet, olhe bem direitinho e compare com muita gente com quem você trabalha, estuda e convive, se olhe no espelho e só aí responda. Você vai titubear, porque com certeza há muita gente parecida com Obama que você não enxerga como negra. E, muitos deles, também não se enxergam.
Isso é bom ou é ruim? É ruim. O bom seria se a cor não interferisse em absoluto na vida das pessoas e elas pudessem viver sem perder tempo se preocupando com um aspecto de seu físico que elas não podem alterar. Não adianta eu ser louro e desejar parecer um guerreiro africano ou uma escandinava sonhar com uma pele bronzeada. E tampouco uma pessoa negra querer passar por branco (isso não vale para o Michael Jackson).
De todas as ignomínias do racismo essa é a básica e a pior. Você condena pessoas por um detalhe que elas não tem como alterar. Mas tudo isso é sabido e assimilado pelo menos racionalmente. Quando chega a hora da emoção muitas vezes o pior das pessoas aparece e se revela em comportamentos discriminatórios baseadas na cor de pele.
Eleição é uma ocasião em que a emoção é definidora da escolha. Pouca gente vota 100% racional. A maioria de nós brinca de gosto/não gosto. E no caso da escolha do presidente da república você também observa se a pessoa se comporta de acordo com o que você espera de um alto mandatário. Ou seja, você tem um paradigma de como deve ser o presidente da república fisicamente, socialmente e gosta de encontra-lo nos candidatos.
Nessa hora, passam a contar educação, etiqueta, elegância e aspecto físico. Podem ser até apenas o confeito do bolo. Inteligência, honradez, coerência política, ideologia seriam a massa, mas ninguém gosta de comer um bolo sem confeito ou mal acabado, não é mesmo? Então todos atributos externos do candidato contam sim e é a observação desses apectos que deflagra a escolha emocional do eleitor.
No Brasil, por exemplo, aprendemos que para a maioria da nossa população pouco importa se o presidente fala um português correto. A maioria dos eleitores brasileiros esta preocupada com outras características.
Bem, fugimos do assunto, mas vamos voltar um pouco. Vamos repetir com mais detalhes a pergunta que ficou solta no programa: vocês acham que no Brasil o Obama teria mais chance reforçando sua liderança negra ou deixando isso de lado?
Escrito por Jose Mattos às 10h37
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Salve Jorge Amado, salve Mia Couto, salve a Bahia, sinhô!
Quem é mais velho viveu as intensas campanhas para Jorge Amado receber um premio Nobel. A quase todo ano o assunto voltava para os jornais, lançava-se a candidatura, falava-se muito, mas nada. Os suecos jamais se sensibilizaram com o nosso Jorge e não lhe deram o laurel. Se esses movimentos foram incentivados por Amado, se ele sonhou com esse prêmio eu não sei, talvez a viúva possa nos contar.
Sexta-feira o escritor moçambicano Mia Couto publicou no Estado de São Paulo um longo artigo de tributo a Jorge Amado. Se o bahiano leu, com certeza achou-se tão ou mais premiado do que se houvesse recebido o Nobel. Porque Mia deu a Jorge Amado a dimensão correta que o Nobel não soube ou não desejou ver. Mostrou como Jorge Amado criou um universo em que se uniram Brasil e África. Mais, um mundo de lingua portuguesa independente de Portugal. Mia diz que com Jorge Amado ele e os escritores africanos aprenderam as possibilidade se de escrever português sem o sotaque lusitano. Ou seja, incorporar a língua como sua e não usá-la como o idioma do colonisador.
Ora esta aí o Nobel de fato e de direito. Jorge morreu e os elogios a ele destinados não tem mais interesse nenhum a não ser demonstrar a admiração. Eu sou leitor de carteirinha de Amado, aprendí a gostar de ler em suas páginas. Mas nunca saberia dessa dimensão de sua obra. Mia Couto resgatou um Amado desconhecido no Brasil, um Amado embaixador do idioma falado e escrito no Brasil junto aos outros povos de língua portuguesa. Um escritor cuja ação libertária deu-se na própria instância do idioma além dos temas socias de suas histórias.
Meus dignos suecos da Real Academia, que Nobel vocês deixaram de dar. Contando, ninguém acredita.
Escrito por Jose Mattos às 11h27
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