por falar nisso


Copenhage, o clima e os chocolates.

 

Essas enchentes em São Paulo são mais educativas a respeito de como estamos administrando mal o nosso meio ambiente do que todo esse palavrorio chegando de Copenhage.

É difícil entender como alguém vende um lote de terra – legal ou ilegalmente – em um bairro chamado de Jardim Pantanal.  Mais difícil ainda é entender como um cidadão compra um terreninho no Jardim Pantanal.

E é extremamente difícil entender como a prefeitura de São Paulo deixou surgir e prosperar o Jardim Pantanal.  Olhem, esse é o exemplo da vez, mas há Jardins Pantanais espalhados por todo o Brasil (realmente por todo o mundo) e eles são produtos de ignorancia, cobiça e má gestão pública.  São produtos da falta de consideração com o meio ambiente, com o total descaso com a natureza.

O clima político no Brasil já é de sucessão e eu não vou envolver o blog nisso, quando for a hora eu vou lá voto e pronto.  Isso dito, é ridículo vermos os políticos brasileiros irem desfilar em Copenhage sem terem feito o mínimo dever de casa.  Por que não há como exonerar as administrações municipais brasileiras de sua responsabilidade pelas barbaridades urbanísticas cometidas sejam nas encostas dos morros das nossas principais cidades, seja na ocupação de pantanos em áreas contíguas a rios, lagoas e até mesmo o mar.

Quem entrar um pouco a fundo nesse problema descobrirá um vereador, um deputado, atrás de cada loteamento irregular.  Um cidadão inconsciente que por um punhado de votos usou seu poder para evitar uma ação da cidade para impedir ou relocar uma urbanização mal situada e irregularmente ocupada.

O fim do filme é sempre o mesmo.  A favela cresce e fica de um tamanho impossível de ser manejado.  É um fato consumado e custará à cidade milhões e      milhões de reais em obras públicas dar um mínimo de condições sanitárias e serviços públicos a essas populações.  Essas obras públicas servem para políticos conseguirem mais votos em troca desses benefícios.

Depois, quando chove e enche a culpa é da chuva e a chuva é culpa das mudanças climáticas e as mudanças climáticas são culpa dos carros, do ar condicionado, dos gases das vacas.

E aí a gente liga a tv e estão os nossos próceres políticos a desfilar baboseiras e falar de compromissos e coisa e tal.

Vamos combinar que a respeito de Copenhage a gente vai na loja mais próxima comprar uns chocolates enquanto aguardamos alguma política real de meio ambiente em nossas cidades.  Ou seja, vamos engordar muito comendo chocolates Kopenhagen.

 



Escrito por Jose Mattos às 07h41
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Copenhagem, aquecimento global e o bug do milênio.

Essa conferência de Copenhagem esta tão falada, tão noticiada e comentada que, que...eu não aguento mais.  Tudo bem, eu nunca fui um cidadão ecochato ou biodesagradavel.  Mas com o tempo fui me concientizando que a humanidade esta mesmo transformando a terra em uma enorme lixeira e se isso não for resolvido nós vamos pagar cada vez mais caro.

 

Cidadão carioca, eu já sei o que é não poder tomar banho de mar no Flamengo e em Botafogo as duas praias com a melhor vista do Pão de Açucar.  E já me acostumei a sentir o fedor do canal  que separa a Ilha do Governador do Continente cada vez que passo na linha Vermelha.  São dois exemplos mínimos, tímidos, mas que uma vez multiplicados demonstram que necessitamos de uma correção de rumo.

 

Quando eu já estou assim quase convencido e pronto para sair por aí abraçando a  Lagoa Rodrido de Freitas, as árvores da floresta, os seixos dos rios da Mantiqueira eu me lembro do bug do ano 2000, o famoso bug do milênio ou Y2K como ficou conhecido entre os entendidos...

 

Para quem é muito novo ou tem memória muito curta lembro que lá pelos idos de 1998 surgiu uma corrente de técnicos prevendo que na passagem de 1999 para 2000 todos os computadores do mundo entrariam em pane.  A razão seria que na memória deles os anos estavam marcados com apenas os dois dígitos da dezena: 31/12/99.  Ora, diziam os sábios de plantão, ao mudar-se o milênio os computadores elouqueceriam porque não saberiam a qual milênio se referia essa dezena.  Ou seja: 31/12/99 poderia ser 30/12/1999 ou 31/12/2099.

 

Gente, isso foi uma festa para milhares de consultores que implementaram projetos caríssimos para prevenir essa confusão.  Esta claro que se ela ocorresse os computadores realmente poderiam falhar e haver perda de dados.  Mas a coisa foi levada a um extremo inacreditável.  Custou-me um reveillon de plantão passado no escritório a espera do bug do milênio. A companhia encomendou uma ceia de Natal e lá ficamos nós aguardando o ano no escritório.  E notem vocês que o ano começa a virar na Austrália.  Ou seja, quando lá o ano virou e os computadores de lá não piraram era um sinal inquívoco que a situação estava sob controle.  Mesmo assim eu e muita gente tivemos um animado reveillon empresarial...

 

Bom, quando vejo todo esse nervosismo a respeito do aquecimento global eu não consigo deixar de lembrar-me do bug do milênio...



Escrito por Jose Mattos às 10h12
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Heresias variadas

Acordei pensando na Hagia Santa Sofia.  Pisquei os olhos e me vieram as imagens da Notre Dame, da Mesquita Azul, da Catedral de São Marcos, da Mesquita de Córdoba, da Mesquita do Sheik Zayed em Abu Dhabi.   Epa, será que Jesus esta me chamando?  Bem, se estava desistiu por um momento e cá estou vivo ainda, mas embatucado com tanta igreja logo de manhã.

 

Esses templos, e milhares de outros espalhados pelo mundo e dedicados as mais diferentes divindades e crenças, são a mais evidente tentativa do homem de fazer algo que agrade aos Deuses.

 

Ontem eu escreví umas linhas sobre como deve ser difícil para um cachorro advinhar o que deve ser feito para agradar um ser humano.  Alguns cães desistem e vão viver na rua, outros,  no entanto,  vão buscar jornais que não sabem para que serve, passam horas correndo atrás de frisbees e outros objetos.  Fazem isso com tanta dedicação que é claro que imaginam que isso faz sentido para o seu “dono/Deus”.  Eles fazem isso para receberem um agrado na cabeça, um alimento, qualquer sinal de garantia de que eles não serão expulsos de casa e vão encontrar ração em suas vasilhas na hora certa.

 

Reis, sultões, imperadores, pensam que Deus, seja ele Javé, Jesus Cristo ou Alah, para ficarmos nas versões mais ocidentais, tem uma relação direta com eles, cuida pessoalmente da vida deles e, portanto, eles se preocupam em agradar a Deus.  Replicam então homenagens que eles gostam ou gostariam de receber se fossem Deuses.  E tome catedrais, sinagogas, mesquitas, cada uma maior que a outra, pois quanto maior o poder de quem ordenou a sua construção, quanto maior a obra.  Um templo é uma forma de tentar dar concretude a algo naturalmente etéreo que é a energia divina.  É também um espaço de interlocução com o além, a respeito do qual só sabemos com certeza que está além.

 

Lendo-se a História fica nítido que nem sempre esses reis e soberanos receberam de Deus o afago que buscavam.  Quem sabe porque talvez foram buscar um jornal que Deus não queria ler ou quem sabe Deus não estava com vontade jogar frisbee com eles.

 

Bem vou terminar por aqui esse meu ensaio de Paulo Coelho.  E domingo, por via das dúvidas, vou a missa pedir perdão por essas heresias.

 



Escrito por Jose Mattos às 11h06
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Bom humor em Paris e em Istambul

Nós estavamos no Boulevard St. Germain, em pleno Paris turístico, e queriamos saber como irmos até a Place de Voges.  

 

Minha mulher empunhava o mapa e se perdia em considerações sobre norte e oeste,  o sul é para lá então vamos dobrar a esquerda...  O sinal fechou e parou na esquina um frances em uma bicicleta. 

 

Eu resolví abordá-lo, peguei o mapa e iniciei a conversa de índio uma vez que o meu frances é precaríssimo.  Fui bem devagar ,previnido por todos os comentários que se escuta a respeito da falta de paciência dos parisienses com os turistas.

 

Oú-lá-lá, o notre ami saiu de seus cuidados, pegou o mapa, pegou uma caneta no bolso e mostrou por onde ir.  Perdeu até o sinal verde e foi só sorrisos.

 

Nós estávamos na igreja Chora, em Istambul.   Essa igreja que é imperdível fica em uma bairro afastado do centro de Istambul.  Resolvemos voltar de ônibus baseados nas informações recebidas na portaria do hotel.  Logo percebemos que iríamos necessitar de apoio local.  Bem, se meu francês é precaríssimo, voces podem imaginar a fluência com que eu falo turco...  E sendo o bairro popular, niguém falava inglês, espanhol ou mesmo francês.

 

Confusão danada, vários turcos tentando nos explicar o caminho por gestos, mímicas incríveis, discutindo entre sí, até que finalmente um deles nos colocou em um ônibus e avisou o chofer onde devíamos saltar.

 

A gente não tinha menor idéia se ele havia dito ao chofer o lugar certo e até mesmo se nos colocara no ônibus correto.  Turista é turista e nessas horas é melhor relaxar.  Logo, logo o ônibus começou a se aproximar de ruas mais conhecidas e saltamos quase no ponto certo.  Tudo considerado, uma façanha.  Mais uma vez, os habitantes locais mostraram sua solidariedade com os turistas e nos salvaram.

 

Paris e Istambul recebem muito mais turistas que o Rio.  E, portanto, seus habitantes devem estar absolutamente cansados de explicarem onde fica a torre Eifel ou a Igreja de Sta. Sofia.

 

Será que nós cariocas temos tanta paciência assim com os nossos turistas?



Escrito por Jose Mattos às 14h34
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Eu, os cachorros e o Botafogo

Eu venho me sentindo em relação ao mundo igual a um cachorro em relação aos homens.  Eu sou afagado e não sei o porquê. Eu sou punido e não sei o porquê.  O mundo me parece tão misterioso quanto a humanidade deve parecer para os cachorros.  

 

As vezes recebo uma bronca pesada no mundo e deve ser porque inadvertidamente sujei a sala da casa.  As vezes sinto a mão do mundo acariciando meus cabelos e concluo que de alguma forma o contentei.

 

Eu não estou perdido desse jeito sozinho, que o digam os milhões de supersticiosos que levam esse sentimento ao extremo. Acham que o mundo os atenderá se estiverem vestidos de azul, não passarem por debaixo de escadas e etc.

 

Por que eu estou escrevendo isso?  Não sei bem, deve ter algo com o Botafogo e a segunda divisão...



Escrito por Jose Mattos às 13h20
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A moratória de Dubai

O pedido de moratória de Dubai é importante para o sistema financeiro mundial e deve juntar-se a crise dos bancos e a crise imobiliária norte-americana como um ponto de inflexão da economia capitalista nesse início de milênio.

 

É interessante notar que o petróleo hoje não tem tanta relevância na economia de Dubai.  Aliás, as reservas de Dubai estão já maduras – ou seja já estão em contagem regressiva – e todo esse esforço de transformação do Emirado em centro de turismo e de finanças foi deflagrado justamente pela necessidade de se encontrar um substituto a altura para o petróleo.

 

As notícias eram boas até uns dois anos atrás.   Com a crise financeira internacional o Emirado de Dubai passou a sentir o reflexo das contenções de investimentos, do empobrecimento dos bancos e também dos baixos preços do petróleo que minaram a sua mais tradicional fonte de recursos.

 

De qualquer forma será realmente lamentável se eles não conseguirem driblar a crise por lá.  Como a gente vem escrevendo, os Emirados Árabes – que reúne mais seis Emirados além de Dubai – vem procurando fazer a coisa certa dentro do clima político religioso complicado que há na região.

 

Optaram por uma sociedade economicamente aberta e um estado religioso para quem é muçulmano, mas laico para as outras pessoas.  É meio confuso, terá que ser corrigido, mas é um bom começo.  Além disso, convocaram universidades e companhias internacionais para um esforço de criar uma região onde coexistam as mais diversas culturas e atividades economicas.   Uma repetição de Andaluzia que viveu sobre o domínio árabe por mais de seis séculos e onde conviveram muçulmanos, judeus e católicos em relativa harmonia.

 

Como se vê eu estou torcendo para que essa moratória não seja o começo do fim desse projeto, mas que apenas o adeque ao mundo pós crise.



Escrito por Jose Mattos às 10h32
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Homens de branco, mulheres de preto e McLuhan

Mais de Abu Dahbi e Dubai.  

 

A estrada que liga as duas cidades é uma Castelo melhorada.  Para quem não passeia pelo interior de SP,  a Castelo é uma estrada que faz a gente pensar que esta na Europa.  A que vai de Abu Dahbi a Dubai faz a gente ter certeza que esta na Europa, não fosse o deserto a perder de vista nas duas margens.  Talvez seja até uma antecipação de uma paisagem européia a estarem corretas as catastróficas previsões ambientalistas que nos obrigam a ler todos os dias...

 

Chegar a Dubai pela estrada é entender de uma vez por todas a expressão “saiu do nada”.  Do nada, do areal infinito, começam a surgir prédios e casas modernas, bem construídas, em ruas pavimentadas e arborizadas.  É uma sucessão de construções de tirar o fôlego.  Todos os estilos da arquitetura moderna estão presentes e na maioria das vezes o bom gosto é evidente.  Eu não conheço Las Vegas, mas quem conhece as duas cidades aponta a semelhança entre elas, sendo Dubai mais encorpada e LV com mais neon e glamour.

 

A sensação de que você está em uma metrópole ocidental é quebrada pelos trajes muçulmanos.  Vejo em uma mesa na praça de alimentação de um shopping um grupo de quatro meninas adolescentes.  Elas se portam com a excitação normal da idade.  Conversam, riem e falam em seus celulares ao mesmo tempo.  Servidos na mesa estão os mesmos sanduíches e batatas fritas.  A diferença é que as quatro estão vestidas de preto, três com o rosto descoberto e a outra só nos deixa ver seus olhos.  De repente chega até a mesa do grupo um casal vestido a maneira ocidental.  A mulher tem seus quarenta anos e traços europeus.  Ela se dirije as jovens em árabe e vejo que são amigas.  O homem também entra na conversa.  Em pouco tempo eles saem e deixam as quatro voltarem ao seu qui-qui-qui de meninas.

 

Pelos corredores passeiam dezenas de homens vestidos de branco impecável acompanhados por suas mulheres de preto.  Alí consumindo como ocidentais, comprando computadores, celulares,  Ipods, produtos da moda.

 

Se McLuhan tem razão e o meio é realmente a mensagem isso vai mudar. 

 

Mas quando?  



Escrito por Jose Mattos às 10h33
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Maomé, Fórmula 1,Harvard, só vendo para crer.

 

A cada vez que uma pessoa entra no mundo árabe chega sempre na questão de como e porque eles perderam sua condição de líderes na matemática, na medicina, na política, no comércio internacional e se transformaram em símbolo número um do mal uso da religião.

Fiquem calmos que eu não vou tentar explicar isso em três parágrafos.

Voltando, eu acabo de passar uma temporada pelos Emirados Árabes onde se realiza a melhor tentativa de lembrar ao mundo que os árabes não formam uma multidão de Bin Ladens e asseclas.  Os Emirados Árabes se propõem a reeditar uma nova Andaluzia, dessa vez em plena península arábica.

Em Abu Dahbi e Dubai, ou na menos conhecida Al Ain, convivem pessoas de todas as religiões, há templos para todos.  As cidades possuem bazares fantásticos e centenários como o bazar do ouro em Dubai e shoppings centers que rivalizam os de Miami.  Shows de rock e pop – assistí a um da Beyonce que se fosse na Arábia Saudita teria levado a moça ao apedrejamento imediato para ela parar de rebolar desse jeito - e outro do Aerosmith provando que o Steve Tiller aos 64 anos de idade continua com o capeta.  E nos eventos a cerveja estava a venda. Ví uma corrida de F1 no autódromo mais high-tech que se possa conceber.  Ou seja: divirtam-se, comprem, se emocionem com as bençãos de Alah.

Para provar que eles estão indo fundo nessa questão, estão previstas a construção de uma filial do Louvre, outra do Guggenheim (ah Rio de Janeiro... que bobeada!).  E já funcionam por lá campus de Harvard, Wharton, Sorbonne e ENA, a famosa escola de administração pública francesa.  Uau! 

Mas, antes que você se anime muito e resolva carimbar o passaporte para lá, veja que tem muita coisa muito errada ainda que precisa ser consertada e concertada antes que Andaluzia se restaure.

Meio perdido na geografia daquelas bandas, um companheiro de viajem depois de constatar a ignorância geral do grupo comprou um mapa para descobrir onde andavam Omã, Iran, Iraque, Jordania e outros países da região.  Chegou com o mapa em casa e fomos todos conferir os nossos palpites.  Abrimos a carta e descobrimos que Israel havia sido literalmente riscado do mapa.  Com uma caneta esferográfica!  Poucos dias depois, voando para Istambul pela Etihad, a linha aérea de Abu Dahbi, em um Airbus novíssimo e com um serviço de bordo de primeira, ví consternado que Israel também sumira no mapa de bordo...

Novamente Andaluzia veio a minha mente, mas para lembrar-me da Mesquita de Córdoba que além de possuir uma catedral católica em seu interior é vizinha de um bairro judeu.

Visto por esse lado as coisas estão involuindo no mundo árabe e o radicalimo ainda irá atrapalhar a vida deles por muito tempo.  Por outro lado, a maquete do Louvre pronto a entrar em construção, a presença das grandes faculdades mostra que há gente fazendo a coisa certa na região.

Qual dos lados irá prevalecer?  Aceito palpites.

 

 

 

 

 



Escrito por Jose Mattos às 08h44
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O Adhan e o Mezain

Era 5 e tanto da tarde e nós caminhavamos em Dubai entre o Mercado das Espécies e o Mercado do Ouro.

 

Havíamos saído do circuito internacional da cidade e íamos pelas ruelas apinhadas de gente onde a única palavra conhecida que encontramos foi a marca Tramontina na fachada de uma loja.

 

De repente iniciou-se o Adhan que são os chamamentos para as orações que os muçulmanos rezam cinco vezes ao dia.  A voz do Mezain saia de dezenas de altofalantes espalhados em igualmente dezenas de mesquitas e se sobrepunha a todo o ruído da cidade.  Eu assustei-me com a altura do chamamento e mais ainda quando ví centenas de homens correndo para as mesquitas.  Vários paravam em fontes d’agua onde limpavam os pés e as mãos apressadamente antes de entrarem no templo.

 

A voz do Mezain era um gemido, um canto, um lamento, eu não consigo bem definir o que era.  Mas sei que positivamente eu não aguentaria viver em um lugar onde tivesse que a escutar cinco vezes ao dia.  Fiquei imaginando se as igrejas católicas também amplificassem seus sinos e nos obrigassem a escutá-los cinco vezes ao dia.

 

Quem mora perto de templos evangélicos tem esse problema e são comuns as reclamações sobre a cantoria dos pastores e seus fiéis.

 

Enfim, foi uma experiência cultural e religiosa muito interessante.  Muito rica.  Explicou-me em poucos minutos o poder da religião na sociedade dos Emirados Árabes e não deixo de admirar quem por cinco vezes ao dia dirige sua energia para a oração. 

 

Afinal, sou Católico Apostólico Romano Relapso e só vou a missa carregado.

 

Benza Deus!



Escrito por Jose Mattos às 14h49
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Pra la de Istambul

Istambul e Rio de Janeiro tem pouco em comum.  Você encontra em Istambul várias edificações mais antigas do que o Rio.  Você pode ir a um banho turco da idade do Rio.  Você tem ruínas romanas, gregas, anatólicas, esbarra em muros construídos por imperadores famosos que já lhe fizeram sofrer em provas de história.  E há o Chifre de Ouro e o Bósforo.  E uma ponte que ao invés de ligar o Rio a Niteroi liga a Europa a Ásia...

 

Istambul e Rio de Janeiro tem alguma coisa em comum na miscigenação de seus habitantes, na alegria de suas noites...êpa!  E desde quando a noite carioca é alegre?  Esse bando de gente andando apressada com medo do ladrão é o contrário da vida noturna.  Já em Instambul as pessoas formam filas para sacar dinheiro em caixas automáticos durante a madrugada.  No Rio isso é tentativa de suicídio. 

 

Em Istambul a turma canta e dança nas mesas espalhadas pelas calçadas ao lado do mercado de peixe ou do centro da cidade.  Tranquilidade total.

 

Primeiro mundo não é, que o digam as ruas esburacadas, mal ilumidadas.  Favela não há nenhuma.  Prostituta na calçada tampouco há.  Ou se há elas estão bem longe da “Avenida Atlantica” deles.

 

Passando uns dias em Istambul a gente vê como o Rio poderia ser se fosse seguro.  E muita gente prefiriria passear – e viver – junto ao Pão de Açucar, Copacabana e companhia do que  tropeçar nas ruínas romanas, otomanas, islamicas que fazem a beleza de Istambul.

 

Bem, eu não sei aonde cheguei com esses parágrafos.  Mas se voces forem a Istambul vão ver que eu tenho razão...



Escrito por Jose Mattos às 13h45
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A rede e a melancolia

Ah...melancolia.  Se eu fosse filmar a melancolia mostraria uma pessoa em uma rede numa varanda de fazenda numa tarde de chuva.  O barulho de chuva, um mugido de boi ao longe, o campo quase escuro ocupando a vista até o horizonte.   A rede balançando o corpo, ninando a alma.

Ô tristezinha boa, ô melancolia danada.

De uns tempos para cá eu passei a temer minha memória.  O problema tem sido que ela quando surge é para trazer de volta coisas que eu quero esquecer.  Será possível se educar a memória, fazê-la vir sempre com boas lembranças,  com dias ensolarados passados em praias magníficas, em belas paisagens?

 

Você também passa por isso, não?



Escrito por Jose Mattos às 09h55
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De solidão e de sonho

Eu sempre tive uma relação estranha com a solidão.  

As vezes a recebo bem e deixo-a assim ao meu lado me defendendo de chatos, problemas, etc.  

As vezes ela me pega distraído e me nocautea (existe isso?).  

Tem vezes que ela me prega peças, como, por exemplo, quando me acorda de madrugada para que eu me sinta só.  Caramba, eu estava dormindo tão bem...

Engraçado que quando estou só minha imaginação viaja um pouco, eu fabulo outras vidas que eu poderia ter, invento personagens que eu poderia ter incorporado.  São pequenas fugas que terminam invariavelmente com um chamado da vida real seja no trabalho, seja em casa.

Há muitos anos essas fugas pareciam sonhos.  Eu pensava que estava sonhando em ser isso ou aquilo, andar por aqui ou por la longe.

Hoje não são mais sonhos.  São, no máximo, desesperanças.  



Escrito por Jose Mattos às 17h41
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Diario de Brasilia

A cada vez que eu retorno à Brasilia a trabalho mais aumenta a minha perplexidade a respeito do que é aquilo ali.

 

Ontem eu cruzei na Câmara com:  um grupo de estudantes da UNE devidamente uniformizados, um grupo de oficiais do exército todos com aquela farda de camuflagem que dentro do prédio do Congresso tem o efeito oposto e é visível a quilômetros, um grupo de soldados da PM de Brasilia pedindo aumento de soldo, vários lobistas defendendo aos vários interesses em jogo nessa história de pré-sal, jornalistas correndo de um lado para o outro tentando saber se alguém tinha notícia, sindicalistas defendendo a diminuição da jornada de trabalho para quarenta horas.   Meninos, eu ví essa gente em menos de três horas.   E é claro eu ví também várias de suas Excelências a receberem ou fugirem de todos esses grupos.

 

Como é que sai alguma coisa que preste desse processo é coisa que eu nem desconfio.  É mais confuso do que o antigo pregão das bolsas com aqueles corretores todos gritando e se empurrando na ansia de conseguirem os melhores preços para as ofertas de seus clientes.

 

Depois também tem o problema do intrincado processo de tramitação das leis.  Cada vez que você pergunta você aprende mais um pouco e fica um pouco mais perdido:  É terminativo, termina na Comissão.   Agora, se houver destaque, você vota em todo o PL menos o destaque.  Depois se for aprovado vai ao plenário.  Agora se houver emenda supressiva aí é diferente, entendeu?   Claro, lógico...

 

Bom, vamos tomar um café e tentar descobrir se o dia foi negativo ou positivo.  Estamos em quatro e dois pensam que foi positivo, um que estamos na mesma e o outro que estamos perdidos.  Na televisão a imagem de um deputado se esguelando sobre o programa cultural do trabalhador nos rouba a concentração.  O café esta bom.  São seis horas da tarde, vamos para o aeroporto, vamos para casa, algum dia a gente ha de entender o que se passou aqui hoje.



Escrito por Jose Mattos às 15h55
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Romario, roleta e uma noite de lua em Búzios

A noite estava perfeita na Rua das Pedras, em Búzios.  L. e eu entramos em um restaurante onde o balcão se projetava na areia da praia.  Pedimos um peixe, é claro, um vinho, é claro também, e ficamos lá a trocar qualquer assunto, a conviver e compartir a noite. 

Na mesa ao lado estava uma mesa ruidosa.   Um grupo animado conversava uns dois pontos mais alto do que devia e era impossível não escutarmos o que eles falavam.

O assunto era o Romário.  O assunto era a repentina pobreza do Romário, a perda da bela cobertura na Barra, a prisão por não pagar a pensão à ex-esposa e outras agruras publicadas.

Até aí vou eu, figuras notórias tem mesmo sua vida aberta a todos.  O estranho era a felicidade com que o grupo se referia aos problemas do craque.  Perdeu tudo – risos.  Até o último tostão – mais risos.  E tudo na roleta – quase gargalhadas.  Os comentários saíam de todos, não havia um comentário de misericórdia.

O que o Romário fez a eles eu não sei.  Deve ter sido ofensa grave pela alegria que sua decadência financeira trouxe a todos.

Mas eu fiquei pensando, em uma noite como essa, você no lugar certo, com uma boa comida e um bom vinho, a companhia de amigos, ficar se divertindo com a desgraça dos outros?

Que gente.



Escrito por Jose Mattos às 10h56
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Twitter, Blog e outras novidades na arena dos famosos

Essas leis que tentam domar a tecnologia sempre terminam em besteira.  O grande e inesquecível exemplo é o da Lei da Informática que atrasou o Brasil algumas décadas.  Para quem não estava por aqui explico que essa lei proibia praticamente a importação de computadores na tentativa de estimular uma indústria nacional de computadores.

 

Estava tudo errado, a lei não incentivou nada que prestasse e quase terminou nos transformando em uma Coréia do Norte.  Como sempre, as modificações do mundo se impuseram e nos vimos livres dessa legislação.

 

Agora não é mais ao hardware que eles (quem são eles?  Eterna pergunta...) se debruçam e buscam fórmulas para controlar.  Agora é o twitter, são os blogs.  Querem usar uma lei desenhada para a imprensa para regular duas midia que não são imprensa.  Sabe o que eles vão conseguir? Nada.

 

Pois então eu não posso aqui do meu humilíssimo e pouquíssimo lido blog sentar o porrete em um candidato que me desagrade ou elogiar a algum que eu consiga encontrar para isso?  E quem vai vigiar?  Essa turma sabe quantos blogs há?  Como é fácil iniciar um blog?

 

É verdade, a tecnologia traz desafios e um deles é o aumento enorme de informações disponíveis e, por consequência,  de desinformação rodando por aí.  Se eu quiser inventar uma mentira sobre alguém eu invento e publico.  E daí?  Ou uma foto ou um clip de imagem ou de voz.  E de repente eu sou bom imitador e a voz não é da pessoa.

 

Da vontade mesmo de arrumar a bagunça com lei.  Só que não da certo.  É tampar o sol com a peneira.  Quem quiser ser uma pessoa pública seja na política, nas artes, na midia tem que saber que está exposta aos blogs, aos twitters aos clips do You Tube.

 

É mais um desafio, mais uma pequena dificuldade.  Só isso.



Escrito por Jose Mattos às 18h23
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